Puxe a mão, nunca o tapete: Paula Freitas e a engenharia de uma nova liderança feminina
Entre tecnologia, propósito, maternidade e poder, Paula Freitas defende que romper a rivalidade entre mulheres e transformar sororidade em estratégia é uma forma de ampliar caminhos, autonomia e liderança para as próximas gerações.
A rivalidade feminina como roteiro aprendido
Contos, filmes, músicas e narrativas populares repetiram por décadas a ideia de que duas mulheres próximas ao mesmo espaço de poder precisam competir. A madrasta, a rival, a mulher que “rouba” o lugar da outra. O sucesso feminino aparece como recurso escasso. Para Paula Freitas, esse roteiro não é neutro: ele cria vigilância permanente entre mulheres e favorece ambientes em que a disputa lateral substitui o enfrentamento das estruturas que limitam todas.
Quando uma mulher chega ao topo, pode enfrentar a cobrança do machismo estrutural e, ao mesmo tempo, o olhar treinado de outras mulheres para identificar falhas e fragilidades. O resultado é um sistema eficiente em fragmentar alianças justamente onde elas seriam mais necessárias.
A leitura se torna ainda mais crítica diante da ascensão sem autonomia: o cargo que vem sem a caneta, o título sem poder real de decisão e a presença feminina usada como vitrine enquanto os centros de comando permanecem inalterados. Nesses ambientes, a rivalidade se torna útil para quem controla os bastidores.
Sororidade não é ingenuidade: é estratégia
A resposta proposta por Paula não é negar divergências nem romantizar relações. Sororidade, em sua visão, significa compreender que o avanço de uma mulher pode ampliar o território de muitas outras. É estratégia, engenharia aplicada às relações humanas e construção de ecossistema.
Ao recorrer ao estoicismo, Paula recupera a ideia de que aquilo que prejudica a colmeia também prejudica a abelha. Puxar o tapete de outra mulher pode gerar uma vitória imediata, mas enfraquece a própria estrutura em que todas tentam avançar. A matemática proposta é inversa à lógica da escassez: portas abertas por uma mulher aumentam a possibilidade de circulação das demais.
Sarah e a engenharia do futuro
É nesse ponto que a reflexão ganha um rosto: Sarah, sua filha. Criar a filha, para Paula, é um exercício de engenharia do futuro. A intenção é que Sarah cresça sem associar protagonismo feminino a culpa, medo ou necessidade de pedir licença; que possa imaginar para si qualquer caminho sem aceitar que determinadas mesas não foram feitas para ela.
Sarah também funciona como símbolo de uma geração inteira de meninas. A trajetória de Paula, de escola pública a espaços de liderança, encontra na maternidade a responsabilidade de tornar o caminho mais largo para quem chega depois. Tecnologia e educação aparecem não apenas como ferramentas profissionais, mas como instrumentos de liberdade.
Da competição à aliança
Liderança, nessa perspectiva, só se completa quando abre caminho, reduz neblina e permite que outras pessoas avancem. Isso transforma a própria ideia de sucesso: menos acúmulo individual de títulos, mais capacidade de servir como ponte.
É por isso que a rivalidade feminina é tratada como um roteiro que pode — e precisa — ser reescrito. Em vez de procurar o defeito na mulher que avançou, a pergunta estratégica passa a ser: como a porta que ela abriu pode facilitar a entrada de outras? Em vez de uma sala com uma única cadeira, ampliar a mesa. Em vez de disputar território, alargar o território.
Uma liderança em movimento
Ao juntar engenharia, tecnologia, comportamento humano, filosofia, gestão e maternidade, a narrativa desemboca numa tese simples e exigente: o futuro da liderança feminina depende menos de criar mulheres “mais fortes” isoladamente e mais de construir ambientes em que elas não precisem se destruir para avançar. O legado não está apenas em ocupar espaços. Está em mudar a lógica dos espaços ocupados.
“Puxe a mão, nunca o tapete. Porque quando uma mulher avança, outras devem ver o caminho ficar mais largo, não mais difícil.”Paula Freitas — fundadora do Portal Eixo ao Quadrado²